quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Nietzsche e Dostoiévski: uma possível conexão

Por José Zacarias de Souza

Nietzsche (1844 – 1900) e Dostoiévski (1821 – 1881) o que podemos ver em comum no filósofo alemão e no romancista russo? O que sabemos é que Dostoiévski foi uma das maiores influências literárias de Nietzsche. Este ficou impressionado com o tipo de personagem criado pelo romancista, o chamado personagem niilista radical. Este tipo de personagem foi inspirado no homem-idéia, um produto sócio-político do Movimento Narodniki.
Narondniks eram membros da elite russa, alfabetizados e originários das cidades. Estes nas décadas de 1860-1870 idealizaram um retorno à vida do campo, inspirados no romantismo e em Rousseau. O seu movimento ficou conhecido como Narodnichestvo (ou Narodismo). Este termo deriva da expressão russa “Khozhdeniev v nirod” (ir para o povo). O movimento obteve sucesso em virtude do confronto com a realidade rural bem diferente da idealizada. Os intelectuais concluíram que os camponeses não eram seus aliados. Inspirado nesta realidade e contexto social Dostoiévski escreve e cria seus personagens. Mas o que vem a ser o homem-idéia? São seres ideológicos, os quais vivem, matam e morrem em função de uma causa desvinculada de imposições religiosas. Estas pessoas eram fruto da sociedade liberal e progressista moderna que atacava os valores religiosos. O homem-idéia também inspirava-se no niilismo, pois esta doutrina filosófica negava a existência do absoluto, quer como verdade, quer como valor ético.O homem-idéia rompia com os valores da sociedade, criava um universo ético próprio, afastando-se do cristianismo. É este homem-idéia que inspirará Dostoiévski a criar seus personagens, como por exemplo o príncipe Stavioguin no romance Os demônios; o intelectual Ivan Karamazov de Os irmãos Karamazov; e o jovem estudante Raskolnikov, em Crime e castigo. Todos eles são frutos da modernidade que Dostoiévski detestava. O escritor russo não fazia apologia a este tipo de indivíduo sem limites. Na verdade o que ele queria era expor a fragilidade e os perigos de tal teoria. Por isso, seu homem-idéia a cada novela sofre grandes conseqüências por seu sentimento de “super-homem”. Aos personagens citados, nosso autor reserva um final infeliz, já que em virtude de sua visão religiosa do mundo não aceitava esse homem-idéia inspirado no niilismo.Vejamos com mais detalhes algumas idéias presentes no romance Crime e castigo e a relação que podemos estabelecer entre Nietzsche e Dostoiévski.




Do que fala a novela?


Raskolnikov o protagonista de Crime e castigo é um estudante que sente-se capaz de realizar grandes coisas. Para tornar-se um ser útil aos semelhantes, e vendo-se sem recursos, em precária situação, pensa da seguinte maneira: alí está aquela velha agiota, uma avarenta da qual não pode vir qualquer proveito para o mundo. Se ele a matar e apoderar-se do dinheiro que ela tem guardado, continuará os estudos, ajudará sua mãe e irmã que não estão em boa situação e ainda fará um serviço à humanidade. Tudo depende de um gesto: matar a velha. Será isso um crime? Para que serve esta velha? É um piolho , um ser inútil. Constituirá a vida humana um valor absoluto? De forma alguma. Ele pensa nos grandes chefes de Estado que nunca vacilaram em matar milhares de pessoas se possuíssem um motivo que os justificassem. Raciocinando assim Raskolnikov sente-se pertencer à raça dos Napoleões e por isso procura remover o obstáculo que está no seu caminho.Vai e mata a velha, elimina também a companheira desta última; mata e rouba. Raskolnikov não se arrepende, reconhece que a velha era um piolho. O que aflige é a incerteza angustiante do motivo pelo qual agira. Seria mesmo visando o bem que praticara o mal? Não passariam de meros pretextos as razões com que procurava justificar o crime? Então, por que matara, na verdade? Para poder se poderia matar, para experimentar a própria força, a própria liberdade? Cometido o crime o estudante não consegue mais justificar-se perante a própria consciência. Parecia que tudo estava certo mas o plano falhou, não removeu somente um obstáculo pois teve que matar à última hora a companheira da velha. Raskolnikov que se presumia um super-homem se transforma em um joquete das situações. Um crime determina outro, ou seja, um desencadear incoercível de forças.
Assim ele parece compreender que não há super-homens, todos são mesquinhas criaturas, escravas da condição humana. Tudo o que há de humano nele protesta contra o crime. Seu suplício prossegue no esforço desesperado para abafar por meio do raciocínio, de lógica, a revolta da consciência. Num diálogo terrível consigo mesmo, erra pelas ruas de São Petersburgo sempre a remoer a idéia de que fizera. Sua atitudes levam o juiz Porfíri a prever o momento em que Raskolnikov confessará o crime.
Nesse momento intervém a figura de Sônia uma prostituta que se une a Raskolnikov pelo amor e pelo sofrimento. O estudante conta-lhe tudo e é a profunda humanidade de Sônia que acaba por falar-lhe à consciência. “Foi a mim mesmo que matei, quando matei a velha” –exclamava em determinado momento o estudante. É preciso então sofrer, curvar-se ao castigo.
Mas mesmo depois de entregar-se à justiça, de ser condenado ao banimento na Sibéria, para onde segue ao lado de Sônia, que quis compartilhar com ele a mesma sentença, Raskolnikov não se mostra arrependido. No fundo continua ele na certeza de que seu desastre resultou do fato de não ter conseguido tornar-se um super-homem.


A relação entre Dostoiévski e Nietzsche


Nietzsche em diversas obras, como em A genealogia da moral, Para além do bem e mal e Crepúsculo dos ídolos, faz a análise histórica da moral e afirma a incompatibilidade entre a moral e a vida. Nietzsche principia a resolução deste problema fazendo uma investida à moral e aos valores existentes na sociedade que lhe é contemporânea. Segundo ele, esses valores originaram-se de civilizações que já não existem mais, como a judaica e a grega, e de religiões em que grande parte já não têm fé. Segundo o filósofo, é necessário uma nova base para fundamentarmos nossos valores.O homem, sob o domínio da moral se enfraquece, tornando-se doentio e culpado. A moral originada do pensamento socrático ou da pregação de Jesus voltou-se para os fracos. O que devemos privilegiar é a Grécia homérica do tempo das epopéias e das tragédias, pois segundo Nietzsche este era o tempo dos verdadeiros valores aristocráticos, quando a virtude, residia na força e na potência, era a virtude do guerreiro belo e bom, amado dos deuses.
Este período dá origem à moral dos senhores que é positiva, porque baseada no sim à vida, e se configura sob o signo da plenitude, do acréscimo. Por isso, essa moral está fundada na capacidade de criação, de invenção. O resultado é a alegria, conseqüência de afirmação da potência. O homem é o super-homem. Este “além-do-homem” (Übermensch) é identificado por Nietzsche em personagens como Napoleão, Lutero, Goethe e até mesmo Sócrates (este pela coragem de levar suas idéias às últimas conseqüências). Em suma, no líder que tem vontade de poder que atreve-se a tornar-se o que realmente é. É assim que se afirma a vida e se pode atingir a auto-realização.
À moral dos senhores que é sadia e voltada para os instintos de vida Nietzsche contrapõe o pensamento socrático-platônico e a tradição da religião judaico-cristã. A moral que deriva daí é uma moral de escravos porque tenta subjulgar os instintos pela razão. Esta moral estabelece um sistema de juízos que considera o bem e o mal alores metafísicos transcendentes, isto é, independentes da situação concreta vivida pelo homem. Difundindo uma moral que prestigia os fracos dos fortes, valorizando a justiça no lugar da força, protegendo os mansos dos ousados. A moral de escravos inverte os processos pelos quais o homem se elevou acima dos animais e exalta virtudes que são típicas de escravos: abnegação, auto-sacrifício, colocar a vida a serviço de outros.
Enquanto Nietzsche se opõe a esta moral transcendental, metafísica, Dostoiévski escreve seus romances nessa perspectiva, ou seja, o grande assunto de sua obra é o problema do Bem e do Mal numa perspectiva metafísica. O que será o Bem? Que será o Mal?
Como sabemos Dostoiévski foi condenado por crime político e esteve preso na Sibéria. O único livro permitido para eles na prisão era o Evangelho. Esse livro o deixou convencido que pecara, fazendo-o suportar os quatro anos de prisão como uma provação necessária para conseguir a paz interior, sem a qual não poderia viver. Para Nietzsche este mesmo livro produziu um efeito totalmente contrário, tanto é que escreve Humano demasiado humano e Assim falou Zaratustra. Ele escreveu em A Gaia ciência que na Europa cristã “o característico da ação moral reside na renúncia a si, na negação de si, no sacrifício de si mesmo, ou na simpatia, na compaixão” (§ 345). Já Dostoiévski conforma-se aos ensinamentos de Cristo, descobrindo neles o verdadeiro segredo da vida. Mas isso só percebemos e temos claro à medida que avançamos na leitura ou até chegarmos ao final. Porque ao longo da história percebemos que os personagens criados por Dostoiévski têm múltiplas vozes que falam, não havendo somente uma consciência mas várias que existem juntas em diálogo permanente dentro de um mesmo ser demonstrado uma profunda tensão psicológica. Já no inicio do romance Crime e castigo percebemos que Raskolnikov tem um plano que quer realizar e diz “o que mais tememos é o que tira de nossos hábitos”. Esta inquietude demonstra que há uma batalha na sua consciência. Em seguida ouvimos o narrador dizer que “apesar da medonha luta que se feria no seu foro íntimo, nem por um momento podia admitir que viesse a executar o seu projeto”. A consciência para Dostoiévski é algo importante, é ela quem conduzirá os personagens para que eles tenham uma real compreensão do que estão fazendo. Mas para Nietzsche é a consciência que caracteriza a “natureza de rebanho”. A consciência não define a essência individual do ser humano, mas ela surge porque os valores são considerados transcendentes, divinos. Diz Scarlett Marton:
A noção nietzschiana de valor opera uma subversão crítica: ela põe de imediato a questão do valor dos valores e esta, ao ser colocada, levanta a pergunta pela criação dos valores. Se até agora não se pôs em causa o valor dos valores ‘bem’ e ‘mal’, é porque se supôs que existiram desde sempre; instituídos num além, encontravam legitimidade num mundo supra-sensível. No entanto, uma vez questionados, revelam-se apenas ‘humanos, demasiados humanos’; em algum momento e em algum lugar, simplesmente foram criados (Marton, 1993, p.50).
Eles são criados pelos homens e estes se submetem a eles, porque os homens vivem em sociedade. Verificando que os valores não têm origem divina, Nietzsche afirma que somos livres para negá-los e escolher nossos próprios valores. Ao “tu deves” devemos responder como “eu quero”. É a vontade de poder (Wille zur Macht) que permite ao indivíduo desenvolver seu potencial máximo. A vontade é uma energia que mobiliza o ser humano, que o faz ultrapassar os obstáculos e vencer os desejos.
Em Crime e castigo, o personagem Raskolnikov é um jovem estudante extremamente pobre que deseja ser um super-homem, deseja fazer algo diferente dos demais, quer se impor, quer se colocar acima da massa.
Dostoiévski como já foi dito anteriormente faz uma reflexão do Bem e do Mal na perspectiva metafísica religiosa, mas em Crime e Castigo pretendeu fazer de Raskolnikov um super-homem, capaz de sobrepor-se ao bem e ao mal. “Não foi para me fazer benfeitor da humanidade, após ter adquirido os meios … Precisava saber e sem demora, se era um verme como os outros, ou um homem”. Mas depois de ter cometido o crime a sua consciência cristã reage e ele não sossega enquanto não confessa a culpa, diferente do que imaginara não teve mais paz. Carregou uma espécie de castigo interior, de dúvida moral tão grande, que virava quase sempre debilidade física. Isso ocorre devido ao excesso de consciência. Raskolnikov queria ser o além-do-homem, mas o ressentimento e a consciência não permitiram. E o excesso de consciência o lava à impotência, não conseguia fazer mais nada. O homem forte e de ação que ele queria ser não conseguiu. Isto porque os homens de ação usam o necessário da capacidade de modo que são sadios, quando há um hiperdesenvolvimento da consciência, o que temos segundo Nietzsche, é uma doença. E após Raskolnikov cometer o duplo assassinato a consciência o acusa, lhe corrói a alma. Todo este sofrimento vivido por ele é resultado do hiperdesenvolvimento da consciência, não advém da pressão social ou das dificuldades sociais. É esta consciência que o iguala aos demais homens. Ele não queria ser igual aos outros. Ao explicar a Sônia porque matou a velha, ele dissera que queria ser igual a Napoleão. Queria se rum forte, queria não fazer parte do rebanho, mas não foi forte.
Para Nietzsche os fortes são saudáveis, enfrentam as situações problemas com as quais se deparam. Mas Raskolnikov não foi forte, porque não soube superar sua condição, a situação pela qual passava. Ele se enganara, pensou que ser forte era fazer algo que o diferenciaria dos demais. Tanto que ele escrevera um artigo falando sobre os homens ordinários e os extraordinários com relação a um crime. E o juiz Porfíri Petrovitch já desconfiado de Raskolnikov o interroga a respeito desse artigo que fora publicado em uma revista. Seria necessário o assassinato para provar que era um além-do-homem? Ou o ressentimento que ele nutria pela situação que se encontrava já o colocara como fraco?
Segundo Raskolnikov o homem extraordinário deveria ser um sujeito sem remorsos, que faria de tudo para atingir seus objetivos.
É este homem extraordinário da obra de Dostoiévski que influenciou Nietzsche a pensar o homem moderno, e que se tornaria o arquétipo do além-do-homem. Enquanto Dostoiévski via com angústia e preocupação o homem ‘extraordinário’, Nietzsche descobre nele o homem forte, aquele que é criador de valores, e portanto, instaurador do seu destino e não submisso às normas.
Após ter cometido o crime a consciência cristã de Raskolnikov, reage e ele não sossega enquanto não confessa a culpa. Neste tipo de moral o homem tem que sofrer para resgatar suas culpas.
Por outro lado, para Nietzsche a má consciência ou sentimento de culpa é o sentimento voltado contra si mesmo daí fazendo nascer o pecado. No romance em questão este problema é ilustrador com todo o realismo o processo psíquico do sentimento de culpa, este sentimento o esmaga e corrói e para se livrar só encontra saída na aceitação do castigo.
Na Genealogia da moral Nietzsche reflete sobre o ideal ascético que nega a alegria da vida e coloca a mortificação como meio para alcançar uma outra vida num mundo superior, do além. Por isso, as práticas de altruísmo destroem o amor de si, demonstrando os instintos e produzindo gerações de fracos.
É por isso que contra o enfraquecimento do homem, contra a transformação de fortes em fracos –tema constante da reflexão nietzschiana –é necessário assumir uma perspectiva além de bem e mal, isto é, ‘além da moral’. Mas, por outro lado, para além de bem e mal não significa para além de bom e mau. A dimensão das forças dos instintos, de vontade de potência, permanece fundamental. ‘O que é bom? Tudo que intensifica no homem o sentimento de potência, a vontade de potência, a própria potência. O que é mau? Tudo que provém da fraqueza (Machado,1984, p. 77).


Considerações finais


Como vimos Nietzsche foi profundamente atingido pela obra de Dostoiévski. Mas o que aprendemos com eles? Em Dostoiévski vemos que o mundo humano é assinalado pela vontade do mal, que é produto da vontade e liberdade do homem. E muitas vezes o homem tem prazer na prática do mal. Para o autor russo, o homem chega ao bem à medida que leva até o fim o processo auto-destrutivo do mal. Foi isso o que ocorreu com Raskolnikov. Este personagem não pode ser visto como um assassino violento, mas como um indivíduo problemático, dilacerado pela dúvida, o oposto de um indivíduo perfeito, corajoso, confiante.
Nietzsche, por sua, vez constatou que na sociedade há o instinto de rebanho, onde através dos costumes o homem chega à certeza de que é necessário prazer, a autodeterminação e a liberdade de vontade.
Giacoia, em seu livro Nietzsche, apresenta o filósofo como aquele que se opõe à supressão das diferenças, à padronização de valores que, sob o pretexto de universalidade, encobre, de fato, a imposição totalitária de interesses particulares; por isso, ele é também um opositor da igualdade entendido como uniformidade. Assim, denunciou a transformação de pessoas em peças anônimas da engrenagem global de interesses e a manipulação de corações e mentes pelos grandes dispositivos formadores de opinião (Giacoia, 2000, p. 11).
A aproximação de Nietzsche com Dostoiévski é tão grande que o filósofo repetiu uma cena narrada no romance Crime e castigo. Uma das cenas mais emocionantes desta novela é quando Raskolnikov conta um sonho, que relembra um episódio que vivera quando criança. Neste sonho ele vê um grupo de camponeses alcoolizados que surram um cavalo até a morte. Desesperado ele se abraça ao cavalo agonizante e lhe dá um beijo. Nietzsche, como leitor apaixonado de Dostoiévski, repetiu a cena de Raskolnikov. Numa rua de Turim, na Itália, ele se abraçou chorando a um cavalo que um cocheiro castigava brutalmente, beijando-lhe o focinho em lágrimas.
Para finalizar, Dostoiévski e Nietzsche nos mostram dois tipos de homens: os de tipo comum e os atípicos. Os dois se questionaram sobre a natureza humana e a moral. E os dois, cada um à sua maneira, foram homens extraordinários que nos colocaram à procura do homem, do ser humano. É claro que há necessidade de uma reflexão mais aprofundada, mas notamos que boa parte do pensamento de Nietzsche teve inspiração em personagens literários.






Referências


Dostoiévski, F. Crime e castigo. São Paulo: Publifolha, 1998 (Biblioteca Folha. Clássicos da Literatura Universal;5).
Giacoia Junior, O .Nietzsche. São Paulo: Publifolha, 2000 (Coleção Folha explica).
Machado, R. Nietzsche e a verdade. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.
Marton, S. Nietzsche, a transvaloração dos valores. São Paulo: Moderna 1993.
Nietzsche, F. Obras incompletas. São Paulo: Abril, 1978.


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